

CRÔNICA (042)- Hanseníase: Pele, Silêncio e Preconceito
Lembro da primeira vez que ouvi a palavra “hanseníase”. Estava num posto de saúde, acompanhando uma amiga para uma consulta, quando meus olhos foram atraídos por um cartaz meio esquecido na parede. Dizia algo como: “Hanseníase tem cura. O preconceito, não deveria existir.”
Fiquei parado ali, olhando para aquela frase como quem lê uma verdade que sempre soube, mas nunca tinha ouvido em voz alta. Aquela frase simples carregava um peso imenso: o peso de uma história que atravessou séculos, de vidas marcadas não só pela doença, mas pela exclusão, pelo medo e pelo silêncio. A hanseníase, por muito tempo conhecida como lepra, foi mais do que uma enfermidade: foi uma sentença social. Pessoas eram isoladas em leprosários, separadas de suas famílias e comunidades, privadas de dignidade. O nome da doença carregava uma carga histórica de estigma que perdura até hoje. Quantas vidas foram vividas à margem porque a pele, que deveria ser uma ponte de afeto e identidade, virou motivo de afastamento e discriminação? O olhar desconfiado, o sussurro pelas costas, o preconceito enraizado na ignorância e no medo do desconhecido. Hoje, a ciência avança e a realidade muda. Há tratamento eficaz, gratuito e acessível pelo SUS. Médicos capacitados identificam os sinais precocemente, e campanhas informativas tentam derrubar os muros do preconceito. Mas, apesar disso, o estigma não desapareceu. A hanseníase ainda é sinônimo de exclusão social, não pela bactéria, mas pelo preconceito que resiste na alma das pessoas. Por isso, o Dia Internacional do Hanseniano é muito mais do que uma data no calendário. É um convite à memória, à empatia e à transformação. É um lembrete de que ninguém deveria ser definido por uma condição médica, e sim pela inteireza do que é: alguém que ri, sonha, sente. Alguém que ama, que trabalha, que convive e, às vezes, adoece. Mas que merece viver com dignidade, respeito e esperança. Se o corpo marca, que o coração abrace. Se o mundo calou, que a gente fale. Se antes afastaram, que agora a gente aproxime. A verdadeira cura não está apenas nas pastilhas, mas na mudança do olhar. Na quebra do silêncio. No gesto de quem escolhe enxergar além da pele. Porque, no fim das contas, talvez não seja a pele o que mais precise de cura. Talvez seja o olhar. Fale sobre hanseníase. Compartilhe conhecimento. Quebre o silêncio que ainda alimenta o preconceito. Porque a informação cura, e a empatia transforma vidas.
MAZZAROLO ANGHINONI
Enviado por MAZZAROLO ANGHINONI em 01/11/2025
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